domingo, 9 de maio de 2010

Mega Cidades


Muito bacana a série que o Fantástico (tv Globo) vem apresentando nos últimos domingos: Mega Cidades. Conduzida pelo experiente Zeca Camargo, que tem o passaporte pra lá de bem carimbado, a série mostra muitas soluções alternativas para cidades que estão crescendo demais, que estão sofrendo muito com esse crescimento e que precisam conceber essas idéias para não acabarem sufocadas pelo lixo, a poluição e o excesso de gente.

A matéria de hoje foi sobre o Cairo, no Egito, uma cidade que hoje conta com uma população de pouco mais de 12 milhões de habitantes (uau!) em pouco mais de 214 km2 de extensão.

O bacana dessa série de matérias é que Zeca compara tudo a São Paulo, a nossa mega cidade. Todo dia rezo para que o Rio de Janeiro não caminhe nesse sentido, porque, sinceramente, não temos mais para onde crescer.

Temos problemas demais, lixo demais (vide o Centro da cidade à noite), pessoas demais nas ruas, um trânsito pra lá de caótico, um desrespeito imenso as leis (quem pára no sinal nessa cidade, se não tem um pardal para multá-lo?)...

Vale à pena conferir a série. Perdeu alguma cidade? Veja na internet, o link está aqui.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cozinhando com economia

Estas são dicas úteis para quem pensa sempre no melhor para o Planeta... dicas pra cozinha!

1. TAMPE SUAS PANELAS ENQUANTO COZINHA. Parece obvio, não é? E é mesmo! Ao tampar as panelas enquanto cozinha você aproveita o calor que simplesmente se perderia no ar.

2. USE UMA GARRAFA TÉRMICA COM ÁGUA GELADA. Compre daquelas garrafas térmicas de acampamento, de 2 ou 5 litros. Abasteça-a de água bem gelada com uma bandeja de cubos de gelo pela manhã. Você terá água gelada até a noite e evitará o abre-fecha da geladeira toda vez que alguém quiser beber um copo dágua

3. APRENDA A COZINHAR EM PANELA DE PRESSÃO. Acredite... dá pra cozinhar tudo em panela de pressão: Feijão, arroz, macarrão, carne, peixe etc... Muito mais rápido e economizando 70% de gás.

4.COZINHE COM FOGO MÍNIMO. Se você não faltou às aulas de física no 2º grau você sabe: Não adianta, por mais que você aumente o fogo, sua comida não vai cozinhar mais depressa, pois a água não ultrapassa 100ºC em uma panela comum. Com o fogo alto, você vai é queimar sua comida.

5. ANTES DE COZINHAR, RETIRE DA GELADEIRA TODOS OS INGREDIENTES DE UMA SÓ VEZ. Evite o abre-fecha da geladeira toda vez que seu cozido precisar de uma cebola, uma cenoura, etc...

6. COMA MENOS CARNE VERMELHA. A criação de bovinos é um dos maiores responsáveis pelo efeito estufa. Não é piada. Você já sentiu aquele cheiro pavoroso quando você se aproximou de alguma fazenda/criação de gado? Pois é: É metano, um gás inflamável, poluente, e mega fedorento. Além disso, a produção de carne vermelha demanda uma quantidade enorme de água. Para você ter uma idéia: Para produzir 1kg de carne vermelha são necessários 200 litros de água potável. O mesmo quilo de frango só consome 10 litros.

Essas dicas parecem bem razoáveis, não é mesmo? Nada que a gente não possa fazer. Em tempos de derramamento de óleo, nada melhor do que olhar pro planeta e ver do que ele precisa...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Carta do Zé agricultor para Luis da cidade

Carta do Zé agricultor para Luis da cidade
Autor: Luciano Pizzatto (*)

(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desiqual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.)


Luis,

Quanto tempo. Sou o Zé, seu colega de ginásio, que chegava sempre atrasado, pois a Kombi que pegava no ponto perto do sítio atrasava um pouco. Lembra, né, o do sapato sujo. A professora nunca entendeu que tinha de caminhar 4 km até o ponto da Kombi na ida e volta e o sapato sujava.

Lembra? Se não, sou o Zé com sono... hehe. A Kombi parava às onze da noite no ponto de volta, e com a caminhada ia dormi lá pela uma, e o pai precisava de ajuda para ordenhá as vaca às 5h30 toda manhã. Dava um sono. Agora lembra, né Luis?!

Pois é. Tô pensando em mudá aí com você.

Não que seja ruim o sítio, aqui é uma maravilha. Mato, passarinho, ar bom. Só que acho que tô estragando a vida de você Luis, e teus amigos aí na cidade. Tô vendo todo mundo falá que nóis da agricultura estamo destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio do pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que pará de estudá) fica só a meia hora aí da Capital, e depois dos 4 km a pé, só 10 minuto da sede do município. Mas continuo sem Luz porque os Poste não podem passar por uma tal de APPA que criaram aqui. A água vem do poço, uma maravilha, mas um homem veio e falô que tenho que fazê uma outorga e pagá uma taxa de uso, porque a água vai acabá. Se falô deve ser verdade.

Pra ajudá com as 12 vaca de leite (o pai foi, né ...) contratei o Juca, filho do vizinho, carteira assinada, salário mínimo, morava no fundo de casa, comia com a gente, tudo de bão. Mas também veio outro homem aqui, e falô que se o Juca fosse ordenhá as 5:30 tinha que recebê mais, e não podia trabalhá sábado e domingo (mas as vaca não param de fazê leite no fim de semana). Também visitô a casinha dele, e disse que o beliche tava 2 cm menor do que devia, e a lâmpada (tenho gerador, não te contei !) estava em cima do fogão era do tipo que se esquentasse podia explodí (não entendi ?). A comida que nóis fazia junto tinha que faze parte do salário dele. Bom, Luis tive que pedi pro Juca voltá pra casa, desempregado, mas protegido agora pelo tal homem. Só que acho que não deu certo, soube que foi preso na cidade roubando comida. Do tal homem que veio protege ele, não sei se tava junto.

Na Capital também é assim né, Luis? Tua empregada vai pra uma casa boa toda noite, de carro, tranquila. Você não deixa ela morá nas tal favela, ou beira de rio, porque senão te multam ou o homem vai aí mandar você dar casa boa, e um montão de outras coisa. É tudo igual aí né?
Mas agora, eu e a Maria (lembra dela, casei ) fazemo a ordenha as 5:30, levamo o leite de carroça até onde era o ponto da Kombi, e a cooperativa pega todo dia, se não chove. Se chove, perco o leite e dô pros porco.

Té que o Juca fez economia pra nóis, pois antes me sobrava só um salário por mês, e agora eu e Maria temos sobrado dois salário por mês. Melhorô. Os porco não, pois também veio outro homem e disse que a distancia do Rio não podia ser 20 metro e tinha que derruba tudo e fazer a 30 metro. Também colocá umas coisa pra protegê o Rio. Achei que ele tava certo e disse que ia fazê, e sozinho ia demorá uns trinta dia, só que mesmo assim ele me multô, e pra pagá vendi os porco e a pocilga, e fiquei só com as vaca. O promotor disse que desta vez por este crime não vai me prendê, e fez eu dá cesta básica pro orfanato.

O Luis, ai quando vocês sujam o Rio também paga multa né?

Agora, a água do poço posso pagá, mas tô preocupado com a água do Rio. Todo ele aqui deve ser como na tua cidade Luis, protegido, tem mato dos dois lado, as vaca não chegam nele, não tem erosão, a pocilga acabô .... Só que algo tá errado, pois ele fede e a água é preta e já subi o Rio até a divisa da Capital, e ele vem todo sujo e fedendo aí da tua terra.

Mas vocês não fazem isto né Luis. Pois aqui a multa é grande, e dá prisão. Cortá árvore então, vige!! Tinha uma árvore grande que murcho e ia morre, então pedi pra eu tiráa, aproveitá a madeira pois até podia cair em cima da casa. Como ninguém respondeu aí do escritório que fui, pedi na Capital (não tem aqui não), depois de uns 8 mês, quando a árvore morreu e tava apodrecendo, resolvi tirar, e veja Luis, no outro dia já tinha um fiscal aqui e levei uma multa. Acho que desta vez me prende.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova Lei vai dá multa de R$ 500,00 a R$ 20.000,00 por hectare e por dia da propriedade que tenha algo errado por aqui. Calculei por R$ 500,00 e vi que perco o sítio em uma semana. Então é melhor vendê, e ir morá onde todo mundo cuida da ecologia, pois não tem multa aí. Tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazê nada errado, só falei das coisa por ter certeza que a Lei é pra todos nóis.

E vou morar com vc, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usá o dinheiro primeiro pra compra aquela coisa branca, a geladeira, que aqui no sítio eu encho com tudo que produzo na roça, no pomar, com as vaquinha, e aí na cidade, diz que é fácil, é só abri e a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nóis, os criminoso aqui da roça.

Até Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas não conte até eu vendê o sitio.

* É engenheiro florestal, especialista em direito socioambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF/IBAMA 88/89, deputado desde 1989, detentor do 1º Prêmio Nacional de Ecologia.

Texto original : http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=41996

domingo, 28 de março de 2010

Terremotos na última semana

Para quem quer acompanhar o que está acontecendo no nosso planeta, no que diz respeito aos terremotos, um site bastante interessante é o "Earthquakes in the last week". Impressiona a quantidade de terremotos que estão acomentendo a Terra, e a concentração dos mesmos na região do Pacífico.

É algo a que devemos estar atentos!

domingo, 25 de outubro de 2009

Reciclagens e excessos

Enquanto está todo mundo aqui no Brasil preocupado com os excessos no consumo (pelo menos, eu acredito que a maioria esteja), lá nos Estados Unidos da América, onde estive na semana retrasada, eles estão preocupados em consumir, em gastar.

Gastam com tudo, consomem aos montes e isso se reflete neles mesmos, uma população que está bem acima do peso. A maioria das pessoas é grandalhona, principalmente os locais. Bem que se vê que os tamanhos mais reduzidos são dos estrangeiros.

Numa das viagens de avião que fizemos naquela semana (foi um absurda a quantidade de CO2 que ajudamos a emitir), optamos por tomar o café da manhã no aeroporto. E ao chegar lá, nos demos conta de que não havia muita opção... acabamos no McDonald's. O café da manhã do Mc Donald's de lá é uma coisa pavorosa de tanta gordura. É uma quantidade absurda de comida, um exagero o tamanho das embalagens, papel à beça, enfim, uma coisa que revolta quem não precisa daquilo tudo.

Eu, que costumo comer só o básico pela manhã, à medida que consumia no mesmo ritmo, ia me sentindo uma balofa. Tanto que entrei numa dieta rigorosa quando cheguei no Brasil e acho que, aos poucos, comecei a voltar a velha forma de antes.

Numa das lojas em que estive comprando bonés, disse ao vendedor que não precisava do saquinho, pois já tinha um. Vocês precisavam ver a cara de espanto do cidadão. Era algo quase que impossível de se ver acontecer por lá. É tanto saquinho que precisa de um compartimento na mala só pra eles. Por que não vender ecobags?

Quando é que eles vão entender o tamanho do problema? Quando é que eles vão compreender que isso afeta a eles mesmos, principalmente?

Bom, nem tudo está perdido. A turma da instituição com a qual nos reunimos nos contou que, recentemente, eles passaram por uma competição, voltada para reeducação alimentar, com o auxílio de nutricionistas, e acabaram perdendo muitos quilos. Estão todos bem mais saudáveis. Quem sabe essa onda não se espanha por lá como se espalhou por aqui, né?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A união faz a força

Henrique Andrade Camardo, do Mercado Ético*

Vinhedos em Bento Gonçalves, cidade localizada na região de Serra Gaúcha

.O céu era azul brigadeiro. O frio cantado por Djavan, aquele que vem lá do Sul, deve ter ficado ainda mais para baixo do mapa. Nem parecia inverno ali naquela terra que já foi beijada pela neve em invernos passados. Vestígios da estação só eram denunciados pelas parreiras secas no Vale dos Vinhedos. Como me explicou um morador local, as plantas estavam descansando para produzirem as uvas dos vinhos agora finos da região.

De qualquer forma, a sensação era de verão em Bento Gonçalves, cidade localizada no pólo industrial da Serra Gaúcha, a uma hora e meia da capital Porto Alegre. Com exceção de duas ou três pessoas que ignoravam as altas temperaturas daquela sexta-feira (28/8), todos estavam de mangas curtas.

Mas não era hora de passear. Logo de manhã, quando cheguei ao município, tive uma reunião com Tatiane Merlo e Fabiane Locatelli. Elas são coordenadora do Centro de Competência e diretora da Fundação Proamb, respectivamente. Em nossa conversa, as duas me explicariam sobre a história e trabalhos desenvolvidos pela instituição. Aliás, esse era o principal motivo da Fundação ter me convidado para passar dois dias em Bento.

Foram horas de bate-papo com Locatelli e Merlo. Mas o que realmente chamou minha atenção foi a história de como tudo aquilo teve início.

Imagine empresários sofrendo pressão de uma agência ambiental - no caso a FEPAM (Fundação Estadual de Proteção Ambiental do RS) - para que a legislação ambiental fosse cumprida. Havia ameaças de multas e de fechamento de fábricas. Em outras palavras, o recém-criado órgão do estado estava fazendo o seu trabalho.

Diante do cenário, um grupo de 31 empresários se uniu e criou a Fundação Proamb. O primeiro objetivo era solucionar a questão dos resíduos sólidos de suas fábricas, evitando assim ações mais severas da FEPAM.

O aterro

A resposta viria de uma viagem feita à Alemanha, de onde foi importada a técnica de armazenagem de resíduos industriais.

Em visita ao aterro, pude ver como isso funcionava. A grosso modo, cava-se um piscinão no chão com profundidade que vai de cinco a oito metros e extensão de até 50 metros. As paredes do buraco são cobertas com camadas de um plástico especial, chamado membrana geológica, e um tecido isolante. São eles que impedem o contágio pelo lixo industrial, que é dividido em duas classes: I, que é tóxico e pode contaminar o solo; e o II, que não oferece risco, mas ainda não conta com tecnologia de reciclagem. Quando o depósito se enche, é feito o seu “envelopamento”: cobre-se o lixo com uma camada grossa de concreto.

Vista aérea do aterro sanitário da Proamb

A escolha por esse tipo de aterro foi feita devido ao seu custo-benefício. Mas mesmo com a união de 31 companhias, o custo de um milhão de dólares ainda estava acima das possibilidades da fundação.

Foi então que o grupo decidiu passar o chapéu. Outras 16 empresas que enfrentavam o mesmo problema foram convidadas a participar da iniciativa. Com os novos integrantes, o projeto começou a sair do papel e foi inaugurado em 1999.

Marcio Chiaramonte, presidente da Proamb, ressalta que essa não é a única solução para o problema do lixo industrial. “Mas essa é sim uma solução e foi a que se tornou possível para nós”, diz. “Não fazemos isso porque somos bonzinhos. Claro que estamos preocupados com as questões ambientais, mas a verdade é que esse aterro rende muito dinheiro”, afirma.

Isso não significa exatamente lucro, até porque a Proamb é uma entidade sem fins lucrativos. Como Fabiane Locatelli ressalta, o que a entidade ganha acaba sendo reinvestido em sua própria atividade. O que Chiaramonte quis dizer é que, se as empresas não derem um fim adequado ao lixo, receberão multas severas e, por fim, acabarão perdendo dinheiro.

O fim do lixo?

Lixo armazenado no aterro sanitário da Proamb. Ali ficam armazenados resíduos de classe I e II

Um segundo ponto que me chamou a atenção foi o fato de que o encaminhamento de lixo para o aterro da Proamb vem diminuindo cada vez mais. Para se ter uma idéia, o projeto previa o atendimento a 44 empresas por um período de 20 anos. Hoje, atende-se mais de 500 e a previsão de funcionamento é de 25 anos.

Como assim?

“Desenvolvemos serviços que, aparentemente, estão matando o nosso negócio”, brinca Marcio Chiaramonte. Ele explica que a diminuição do lixo enviado ao aterro se deve ao serviço de consultoria ambiental. Basicamente, diminuíram os desperdícios.

“Estávamos recebendo papelão sujo de óleo. Fomos ver o que estava acontecendo”, conta o presidente. “Descobrimos que havia uma máquina com vazamento. Os papelões impediam que o óleo sujasse o chão. Só que o papelão e o óleo separados podem ser reciclados. E foi o que fizemos”, disse.

Tatiane Merlo dá outro exemplo. “Antendemos uma companhia que utiliza areia nos moldes de seus produtos. Antes, a matéria era utilizada somente uma vez e logo descartada para o aterro. Com novas tecnologias, foi possível reutilizar essa areia diversas vezes”, conta. “Além dos benefícios que isso traz ao meio ambiente, também gera uma renda extra ao fabricante, que gasta menos com matéria-prima e pode vender os materiais recicláveis”, completa.

Segundo Merlo, isso não significa que a Proamb esteja matando o próprio negócio. Ela diz que o resultado é fruto do esforço de se dar uma destinação correta aos resíduos. Além disso, também é a diversificação das atividades da Fundação.
O caso de Bento Gonçalves pode ser visto como uma forma de enfrentar a questão do lixo industrial. Se as empresas sozinhas não conseguem encontrar uma solução, por que não trabalhar em conjunto?

A questão do desperdício também é gritante, principalmente em um momento em que o consumo entra na mira da sustentabilidade. Como ficou claro na conversa com o pessoal da Proamb, a preservação dos recursos naturais, principalmente no meio industrial, está menos ligada à benevolência e muito mais ao lucro.

Aparentemente, quando se mexe no bolso das pessoas, as coisas andam mais rápido. Não foi assim com o cinto-de-segurança? Não seria essa a solução no campo da sustentabilidade?

* Henrique Andrade Camargo viajou a convite da Fundação Proamb.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Um desafio para a construção civil no Brasil

Flávio Bonanome, do Amazonia.org.br

De acordo com a consultoria Obra Limpa, a construção civil brasileira hoje consome mais de 50% de todos os recursos naturais extraídos e é responsável por 60% de todo o resíduo urbano sólido no país. Além da grande produção de lixo, as obras também são responsáveis pela utilização de imensas quantidades de madeira, muitas vezes extraída da mata nativa. Visando diminuir as consequências da construção civil no desmatamento é que já há 13 anos iniciativas brasileiras têm criado mecanismos, como a certificação de origem, para garantir um menor impacto do mercado. Apesar disso, mesmo após todos estes anos, a efetivação destes mecanismos ainda é escassa.

Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2009 revelou que somente 20% dos brasileiros têm conhecimento do que se trata uma certificação como o FSC, por exemplo. A sigla inglesa (Forest Stewardship Council), trazida ao Brasil há mais de uma década, serve como mecanismo de controle da origem da madeira, atestando que não foi extraída de forma ilegal ou predatória das matas nativas. As primeiras ações das entidades que coordenavam a aplicação do FSC foram parcerias com a construção civil visando uma adaptação para uma construção sustentável.

Somente dez anos depois da implantação do selo no Brasil, em 2006, é que foi concluída a primeira obra pública 100% certificada: uma pequena casa no município de São Leopoldo (RS) que serviria como centro de informações turísticas. No setor privado a realidade não é muito diferente. Apesar de alguma adesão de construtoras à utilização de madeira FSC, os únicos empreendimentos totalmente e prontos certificados são os condomínios Genesis, no interior de São Paulo.

De acordo com Karina Aharonian, coordenadora do Grupo Compradores de Produtos Florestais Certificados, diversos fatores colaboram com a dificuldade na propagação da madeira certificada nas obras. “Existem diferentes causas que inibem a utilização no setor, como a falta de incentivo do governo, os departamentos de compras das empresas, que às vezes se mostram resistentes à mudança de atitude ou o desinteresse do consumidor, que apesar de se dizer disposto a comprar produtos com o selo FSC ainda não está tomando uma atitude prática”, afirma Karina.

A pesquisa da Datafolha mostra que a coordenadora tem razão. Cerca de 85% dos entrevistados afirmaram que comprariam produtos certificados, mesmo se precisassem pagar um pouco a mais por isso. Outra pesquisa, realizada pelo Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (GBC do Brasil, sigla em inglês) apurou que 64% das pessoas colocam entre as três principais prioridades de um edifício a existência de itens de sustentabilidade. Porém, apesar do interesse em se consumir produtos verdes, a realidade é bem diferente.

De acordo com Marcelo Takaoka, diretor da construtora Takaoka, pioneira no mercado de construções civis sustentáveis e idealizadora dos condomínios Gênesis, embora esse discurso esteja presente, quando o consumidor adquire um imóvel ele tem outras prioridades. “O consumidor, na hora que está pensando na moradia dele, não está preocupado com o aquecimento global. Ele está preocupado é se a moradia comporta a família dele, se a casa é confortável, se é bem vedada, bem localizada”, explica.

Outro cenário é possível

Para Takaoka o principal problema em se consolidar o conceito de construção sustentável na sociedade está no modelo usado para a abordagem do tema. “O consumidor não está procurando uma tese de sustentabilidade ou um trabalho cientifico de mudanças climáticas ao comprar uma casa. O que ele quer é ser diferente do vizinho, ele quer mostrar que a casa dele tem um diferencial”. De acordo com o engenheiro a linguagem deveria estar mais longe do ambientalismo e mais próximo de uma propaganda verde. “Antes de dizer que é ecológica, é preciso mostrar para o consumidor que a madeira da casa dele é mais bonita, mais durável, mostrar as diferenças para a madeira comum”, explica.

Com este discurso que tenta se aproximar mais da mentalidade do consumidor, Takaoka conseguiu uma vendagem de 100% em seus condomínios sustentáveis, mesmo com um preço acima da média. “É isto que eu tenho dito nas minhas palestras, enquanto continuar falando de queimada na Amazônia, pagar 30% a mais numa madeira não justifica”, afirma.

Silvo Gava, diretor técnico da construtora e incorporadora Even, também acredita que não adianta esperar uma conscientização do consumidor para mudar este cenário. “Isso nas empresas de construção civil tem que partir de cima mesmo, porque se não, não se consegue implementar políticas sustentáveis”, explica. A empresa dirigida por Gava é um bom exemplo no ramo da construção civil: já há três anos utiliza somente madeira certificada pelo FSC em suas obras.

Para Gava, iniciar o trabalho com material certificado foi uma questão de responsabilidade. “Eu acredito que isso, além de ser uma questão de responsabilidade, é uma questão de princípios, até com as futuras gerações”, afirma o diretor. Segundo ele, a escolha por entrar no mercado sustentável via FSC foi até lógica, tendo em vista que, segundo ele, a primeira coisa que as pessoas pensam quando se fala em ecologia é em árvores. “Então tentamos focar com uma ordem de compra, para não mais negociar madeira que não fosse certificada. Daí engajou todo mundo em conceitos, começaram a surgir idéias boas”, explica.

Ciente de que o cliente ainda não está disposto a pagar a mais por um produto certificado, Gava passou a negociar com seus fornecedores para zerar as diferenças. “Na primeira compra de madeira FSC que fiz, gastei 5% a mais, hoje não gasto mais nada. Consigo a madeira FSC no preço da comum”, explica. Para ele, uma política como esta aplicada pelos fornecedores pode ser essencial para a divulgação da sustentabilidade na construção civil. “Se os fornecedores de produtos sustentáveis fossem mais espertos, venderiam muito mais. Aquele que sair na frente e passar a vender produto sustentável ao preço de mercado vai atrair todos os clientes, e desta forma, forçará os outros fornecedores a fazer o mesmo”, afirma Gava.

Alternativa

Outra possibilidade para a popularização da madeira FSC na construção é, por ironia, um outro modelo de certificação: o Leed (Leadership in Energy and Environmental Design). Vindo de um modelo americano, o Leed é um selo atribuído a obras que possuem, não só matéria prima de origem garantida, mas é totalmente planejada para reduzir os impactos da construção civil no meio ambiente.

A certificação, coordenada pelo Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, contempla as obras que adotem recomendações em cinco grandes grupos: uso racional da água, eficiência energética, materiais adequados e recomendações para ambiente interno dos edifícios. Desta forma, para adquirir o selo, o planejamento deve começar na planta, desde a localização do empreendimento visando diminuir o deslocamento automotivo de seus ocupantes, até o posicionamento em relação ao sol para economizar energia durante o dia.

O selo tem conquistado grande sucesso no setor de imóveis empresariais, isto é, para escritórios e sedes das empresas. De acordo com Nelson Sawakami, diretor da GBC do Brasil, o crescimento da popularidade da certificação é proporcional à procura de grandes empresas por imóveis sustentáveis. “Existem várias empresas que quando vão alugar imóveis para escritórios, sedes para suas matrizes, já exigem a certificação como pré-requisito, como a Toyota, a Suez ou a Petrobrás”, explica Sawakami. A vantagem é que todas as obras com Leed possuem também o FSC.

Apesar disso, a metodologia de certificação é bastante demorada, podendo levar até seis meses depois da obra pronta. Esse processo penoso afasta um pouco a procura pelo selo para os clientes comuns. Somente seis obras já foram certificadas pelo Leed, e mais 139 aguardam o selo, o que, de acordo com Sawakami, é menos de 1% do total da construção civil brasileira.

Mesmo com todas as problemáticas, é possível sonhar com um Brasil com 100% de suas construções com aplicações de idéias sustentáveis. Basta somente a medida certa de pressão da sociedade civil, governança bem aplicada, e como diz Silvio Gava, “vontade real por parte das empresas”.

Fonte: Amazonia.org.br, no http://mercadoetico.terra.com.br/